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30 anos sem Burle Marx: relembre obras do percursor do paisagismo moderno

Ao aprofundar as relações entre a botânica, o urbano e a arte, Roberto Burle Marx construiu um legado para o paisagismo do Brasil e do mundo

Por Maria Fernanda Barros
Atualizado em 5 jun 2024, 11h45 - Publicado em 4 jun 2024, 17h57

Antes de se tornar arquiteto paisagista, Roberto Burle Marx era artista plástico. Ele confeccionava desenhos, pinturas, esculturas, tapeçarias, painéis, cenários e figurinos para teatro — tudo isso em um contexto em que as vanguardas artísticas afloravam e as correntes modernistas ocupavam um lugar de destaque. Em 1928, foi rumo à Alemanha para estudar pintura e retornou ao Rio de Janeiro dois anos depois para estudar arte na Academia Nacional de Belas Artes.

30 anos sem Burle Marx: relembre as obras do nome do paisagismo brasileiro
Roberto Burle Marx (©Hedgecoe/The Image Works/Divulgação/CASACOR)

O entrelace da bagagem acadêmica de Burle Marx com um período histórico de inventividade da arte ao redor do mundo foi determinante no início da trajetória profissional do paisagista. Ele resgatou seus aprendizados e intercâmbios na Alemanha e começou uma produção artística experimental em sua própria casa, a partir de plantações nativas.

A convite do arquiteto Lúcio Costa, Burle Marx teve sua primeira experiência profissional como paisagista em 1932. Costa era professor de Roberto na época e, cativado por seu trabalho, o convidou para projetar um jardim para a família Schwartz em Copacabana. Nos anos seguintes, o paisagista assumiu o cargo de diretor de parques e jardins na cidade de Recife e levou seus projetos aos espaços públicos da capital pernambucana – a exemplo do Jardim da Casa Forte.

30 anos sem Burle Marx: relembre as obras do nome do paisagismo brasileiro
(Arthur de Souza/Folha de Pernambuco/Divulgação/CASACOR)

Nesse projeto paisagístico, Burle Marx utilizou plantas da caatinga e de uma vegetação típica do sertão pernambucano — uma escolha que se consagrou como uma ruptura dentro do paisagismo e resultou na concepção de uma obra inovadora. Ao contrário da maioria dos paisagistas daquele contexto, Burle Marx não replicava os jardins europeus do século XVIII.

Roberto buscava seu material de trabalho na vegetação nativa, “desde a floresta amazônica [….] até fundos das casinhas de caboclo ou à beira dos caminhos, onde foi apanhar plantas e flores abandonadas, desprezadas, mas familiares à ambiência da roça brasileira, como os cães vagabundos, sem donos, dos fundos de quintal”, como descreve o escritor Mário Pedrosa.

Com o jardim projetado em 1936 para o edifício do então Ministério da Educação e Saúde (MES) —  atual Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro — Burle Marx se consolidou como o criador do jardim tropical moderno

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Jardim do Palácio Capanema, projetado por Roberto Burle Marx, junto ao grupo liderado por Le Corbusier (Divulgação/CASACOR)

O trabalho de Burle Marx andava em concordância com a arquitetura moderna. Além de Lúcio Costa, Burle Marx trabalhou com outros grandes nomes do modernismo, Oscar Niemeyer e Cândido Portinari. Em 1943, os três assinaram o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, que recebeu em 2016 o título da UNESCO de Patrimônio Cultural da Humanidade.

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Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. (Qu4rto Studio/Acervo Belotur/Divulgação/CASACOR)

A valorização de plantas nativas era uma prioridade de Burle Marx, que caracteriza o legado construído pelo paisagista. Em seus projetos, ele inaugurou muitas plantas nunca antes vistas dentro de trabalhos paisagísticos e dedicava tempo para estudá-las. Por isso, em 1949, surgiu o Sítio Burle Marx, antigo Sítio Santo Antônio da Bica, localizado na Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. O local foi destinado para o estudo comportamental e a aclimatação das plantas, além de ter sido a residência do paisagista. 

Atualmente, o Sítio Burle Marx é uma unidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), aberta para visitação mediante agendamento. O lugar busca divulgar a obra de Burle Marx e ainda dar continuidade ao legado do paisagista, desenvolvendo pesquisas na área da botânica e preservando a vegetação nativa do Brasil.

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Sítio Roberto Burle Marx, na Barra de Guaratiba. (Leo Martins/Agência O Globo/CASACOR)

Na década de 1960, Burle Marx assinou projetos emblemáticos do urbanismo do Rio de Janeiro. O Aterro do Flamengo, projetado pela arquiteta Lota de Macedo Soares, é um dos patrimônios cariocas que leva a assinatura do paisagista. A partir de seus estudos sobre vegetação brasileira, Roberto projetou os jardins do parque com uma cobertura vegetal atrativa para as aves, que preenchem o céu da paisagem.

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Aterro do Flamengo (Rodrigo Soldon/Divulgação/CASACOR)

O Calçadão de Copabana é mais uma obra ilustre de Burle Marx — e, talvez, a mais conhecida de seu inventário. Na década de 1970, o paisagista recriou o calçadão, existente desde o início do século XX.

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O traçado inicial da praia foi inspirado no projeto para largo do Rossio de Lisboa, em Portugal. A intervenção feita por Roberto mudou o sentido das ondas, que se tornaram paralelas ao mar, alongou suas curvas e ampliou o grafismo do desenho.

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Calçadão de Copabana (onatas Dabravolskas/Divulgação/CASACOR)

Com essa obra ícone, Roberto Burle Marx se tornou o autor do “maior exemplo de obra de arte aplicada existente no mundo” — como descreve o seu tombamento no Instituto Estadual de Patrimônio Cultural. Ao longo de sua vida, o paisagista realizou mais de dois mil projetos que internacionalizaram a paisagem natural brasileira. 

30 anos sem Burle Marx: relembre as obras do nome do paisagismo brasileiro
(Sebastião Marinho/Agência O Globo/Divulgação/CASACOR)
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